Manifesto Psy Trance contra a extrema-direita: a pista não é neutra

Coletivo da Cena Psytrance • 10 de outubro de 2026

Posicionamento coletivo da cena psytrance brasileira. Dados e declarações conferidos em 10 de outubro de 2026, a 15 dias do segundo turno. As fontes estão no final do texto.

Prólogo: o som que ninguém desligou de uma vez

Fecha os olhos por um instante. Ou não fecha: só deixa a respiração descer um pouco enquanto você lê. São cinco e quarenta e dois da manhã. O céu ainda não decidiu a cor, mas o grave já decidiu por todo mundo. Você sente o chão vibrar antes de ouvir o kick, e a pessoa ao seu lado, que você nunca viu na vida, sorri como se te conhecesse desde sempre. Tem gente de glitter e gente de moletom, gente de 19 anos e gente de 59, gente que reza para Shiva, gente que reza para Oxum, gente que não reza para nada e só acredita naquele minuto. Ninguém perguntou em quem você vota. Ninguém perguntou quem você ama. Ninguém perguntou quanto você ganha.

Agora imagine, e é só uma imaginação, uma história composta de coisas que já aconteceram em pistas, teatros e cabarés de outros países e outras épocas, que essa festa, que existe há dez anos numa fazenda de beira de estrada, simplesmente não aconteça no próximo verão. Ninguém proibiu o som. Não houve decreto contra o psytrance, nenhuma autoridade subiu num palco para falar dele. O alvará demorou. A fiscalização chegou antes da meia-noite. O edital de cultura que ajudava a pagar o palco foi "repensado". A produtora que cuidava do protocolo de segurança para mulheres perdeu o patrocínio. O DJ que sempre dizia "eu não me meto em política" continuou sem se meter, e continuou sem pista.

Ninguém desligou o som de uma vez. Foi um papel de cada vez. Guarde essa frase: vamos voltar a ela no final deste texto, e você vai perceber que ela guarda uma segunda metade.

1. De onde falamos

Este é um texto-posição, e queremos ser claros sobre o lugar de onde ele sai. Somos a comunidade que mantém viva uma cena de música eletrônica brasileira que já tem décadas de estrada: produtores, DJs, VJs, artistas visuais, equipes de decoração, técnicos de som, gente de selo, de coletivo, de festival, de redução de danos, e uma multidão de pessoas que simplesmente ama dançar. Falamos em nome do espírito dessa cena, não de um partido.

Esse espírito tem nome e é antigo: convivência radical. Toda a música eletrônica de pista descende de clubes negros e queer de Chicago, Detroit e Nova York, lugares onde gente que não cabia em lugar nenhum inventou um lugar. O psytrance herdou essa árvore genealógica e a levou para o mato, para as praias, para as fazendas, para as noites que viram manhã. Nossas pistas são, na prática, um pequeno ensaio de país: pessoas muito diferentes dividindo o mesmo espaço, o mesmo ritmo e o mesmo cuidado.

É por isso que não achamos possível ser "neutro" diante do que está em jogo. Neutralidade, para uma cultura que existe graças à liberdade dos outros, é um luxo que só se mantém enquanto alguém protege a pista por você. O alvo deste manifesto é o projeto político que chamamos de extrema-direita, o bolsonarismo e a coalizão que o sustenta, e a possibilidade concreta de que ele governe o Brasil a partir de janeiro de 2027, na figura de Flávio Bolsonaro. A campanha dele rejeita esse rótulo e se apresenta como moderada. Vamos olhar, com calma e com fontes, o que existe por trás da embalagem.

2. Onde estamos agora: os números que importam

No domingo, 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula (PT), uma diferença de cerca de 2,2 milhões de votos. O segundo turno acontece em 25 de outubro. O dado que mais nos interessa é outro: os candidatos eliminados somaram 9,32 milhões de votos, mais de quatro vezes a diferença entre os dois primeiros. Quem decide esta eleição é quem ainda está decidindo. E gente que frequenta pista tem amigos, primos e colegas de trabalho exatamente nesse grupo.

Há um segundo número que raramente aparece nas conversas de bar: o PL elegeu 121 deputados e terá 28 dos 81 senadores, a maior bancada nas duas Casas. Mesmo que o rosto da campanha tente parecer mais brando, ele mesmo disse que pode ser mais calmo e moderado, mas que ali "tem sangue de Bolsonaro". Quem governa é a coalizão, não o rótulo. Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe, segue como referência política da campanha, e Flávio já afirmou que o pai jamais foi ameaça à democracia. Nós olhamos para o projeto, para a coalizão e para o histórico, e não para a embalagem.

3. As mulheres: segurança não é favor, é pré-condição

Quem já dançou uma noite inteira sabe a diferença entre uma pista em que você se sente segura e uma em que você precisa calcular o caminho até o carro. Essa diferença não é sorte: é cultura, protocolo, equipe treinada, regras claras e uma comunidade que decidiu que assédio não é "parte da balada". Cada coletivo da cena que trabalha com acolhimento e denúncia faz, em escala pequena, o que o Estado deveria fazer em escala grande.

Agora olhe para o cenário nacional. Segundo a Agência Pública, Flávio Bolsonaro se posicionou, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, contra a lei de igualdade salarial entre homens e mulheres. Segundo o noticiário, esta é a primeira eleição presidencial deste século sem mulheres nas principais chapas, e a própria campanha reconhece dificuldade de diálogo com o eleitorado feminino: aliados chegaram a pedir cautela com discursos considerados extremistas sobre o tema. Um influenciador que ajuda a campanha em articulações nos Estados Unidos afirmou em junho que mulheres "votam estatisticamente muito mal". Flávio repudiou a fala, e isso deve ser reconhecido, mas o episódio mostra o ambiente de ideias que orbita o projeto.

A campanha defende penas mais duras e castração química para crimes sexuais. Punir depois do crime é necessário. Mas segurança de mulher também é salário igual, é rede de proteção, é autonomia sobre o próprio corpo. E, na pauta de costumes, Flávio prometeu no lançamento da campanha indicar quatro ministros do STF contrários ao aborto, o que significa que o debate sobre o corpo das mulheres passaria a ser decidido por uma Corte formada com esse critério, por décadas. Mulheres que dançam, trabalham e produzem na nossa cena têm todo o direito de perguntar o que isso muda na vida delas.

4. LGBT+: a pista nasceu como abrigo

Quem já viu um casal se beijar sem medo às seis da manhã sabe o que um abrigo vale. Para muita gente da nossa cena, a pista foi o primeiro lugar do mundo onde ser quem se é deixou de ser um problema. Esse é um patrimônio que não está escrito em lei nenhuma: ele existe porque pessoas se protegeram umas às outras, geração após geração.

Em fevereiro de 2026, o Metrópoles descreveu os acenos de Flávio à comunidade LGBTQIAPN+ como parte de uma estratégia para se apresentar como um "Bolsonaro moderado". Acenos são bem-vindos, mas acenos não são garantias. A mesma reportagem registra que a pauta de costumes, com proibição do aborto, defesa da redução da maioridade penal e liberdade religiosa, não será abandonada, e a coalizão que o sustenta é a maior bancada conservadora do Congresso. A pergunta que a cena precisa fazer, em voz alta e sem rodeios, é simples: haverá compromisso público e por escrito de manter a criminalização da LGBTfobia, equiparada ao racismo pelo STF em 2019, as políticas de saúde e acolhimento e a proteção de pessoas trans? Enquanto a resposta for vaga, quem frequenta a nossa pista tem motivo de sobra para ficar atento.

5. Trabalho: quem monta a pista também precisa de domingo

Uma pista é trabalho. É o técnico de som que monta o palco às três da tarde, a equipe de decoração que passa a semana pendurando tecido, o barman, a segurança, a produtora que cuida da conta do gerador, o motorista da van, a artista visual que pinta ao vivo. A cena é feita, em grande parte, por gente que vive entre o bico, o freela e o contrato precário, e que conhece de perto o cansaço de quem trabalha seis dias para folgar um.

A PEC do fim da escala 6x1 é a principal bandeira trabalhista do atual governo, e o plano de Lula propõe jornada de 40 horas semanais sem corte de salário. Flávio Bolsonaro classificou a proposta como oportunista e, até onde conseguimos apurar, não declarou se votaria a favor. Ele diz que o projeto dele é "infinitamente melhor", mas, até onde vai a informação pública que encontramos, sem detalhes sobre o que seria. Quem pede o voto precisa dizer o que fará com o domingo de quem trabalha. Tempo livre não é luxo: é a matéria-prima da cultura. Sem tempo livre não existe pista, não existe ensaio, não existe festival, não existe comunidade.

6. Progresso de verdade: renda, tempo e cultura são infraestrutura

Progresso não é só PIB. Progresso é a mãe que consegue fechar o mês, o jovem da periferia que continua na escola, a trabalhadora que tem tempo e dinheiro para sair de casa no sábado. Programas sociais bem desenhados são infraestrutura, como estrada e energia: não substituem o esforço de ninguém, mas criam o chão onde o esforço rende. Uma cena cultural vibrante é sempre sintoma de um país onde sobra um pouco de renda e de tempo para a alegria, e é por isso que defendemos que proteção social seja tratada como investimento, não como gasto.

Flávio Bolsonaro afirma que o Bolsa Família será mantido enquanto as pessoas precisarem do Estado, com uma "rampa de saída" para que caminhem com as próprias pernas. Ele também promete um "tesouraço" nas despesas públicas, com redução de ministérios de 39 para cerca de 27 e venda de imóveis e participações da União. Registramos com honestidade: não há promessa de extinguir o programa, e circulou uma mentira de que ele privatizaria o SUS, desmentida pelo Aos Fatos, que não usamos aqui. Mas o desenho importa. Corte de despesa tem destinatário: alguém paga a conta do tesouraço. Cabe perguntar, com educação e firmeza: quais despesas? Saúde, educação, cultura, assistência? Enquanto o plano não responder, quem depende do Estado para sobreviver tem razão em desconfiar.

7. O underground e a asfixia silenciosa

Dizemos com clareza: até onde sabemos, não existe nenhum plano escrito "contra o psytrance". O risco é outro, mais sutil e mais eficiente. Cenas underground raramente são proibidas: são sufocadas. Um alvará que não sai. Uma fiscalização que só aparece na festa "diferente". Um edital que acaba. Um patrocínio que some porque o assunto virou "polêmico". Uma polícia acionada pela vizinhança que, em vez de mediar, reprime. A cena que sobrevive à asfixia é a que tem dinheiro e advogado; a que morre é a pequena, a independente, a experimental, aquela que forma gente nova.

O histórico do bolsonarismo com a cultura tem endereço. Logo no início do governo de Jair Bolsonaro, o Ministério da Cultura foi extinto e rebaixado a secretaria. Jair dizia que "recomeçou a festa" da Lei Rouanet quando o governo seguinte liberou recursos, e o próprio Flávio compartilhou, em janeiro de 2023, uma crítica à captação via Lei Rouanet de uma peça de teatro. No lançamento da campanha, Flávio prometeu indicar quatro ministros do STF contrários ao aborto e à legalização das drogas. Para uma cena que vive de redução de danos, com testagem de substâncias, tendas de acolhimento e informação de qualidade, uma abordagem que enxerga o assunto apenas como caso de polícia significa menos cuidado, não menos uso. Quem trabalha com redução de danos sabe: o proibicionismo puro não tira a substância da festa, tira a equipe que cuida de quem passa mal.

8. Soberania: terras raras, privatização e a velha síndrome colonial

Em 28 de março, na CPAC, conferência conservadora realizada nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro disse que o Brasil é "a solução" para os americanos reduzirem a dependência da China em minerais críticos, e que o Brasil seria o campo de batalha em que o futuro do hemisfério será decidido. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, cerca de 23% do total, segundo Lula, e apenas 30% do território foi pesquisado. Em 18 de março, Goiás, então governado por Ronaldo Caiado, firmou um acordo com os EUA, e a Serra Verde, única mineradora de terras raras em operação no país, recebeu US$ 565 milhões do governo americano em fevereiro e hoje exporta toda a sua produção para a China.

Terras raras estão nos ímãs de turbinas e carros elétricos, nos chips, nos equipamentos de defesa. Quem controla a cadeia controla o século. A pergunta que importa é simples: em que termos o Brasil entra nessa cadeia? Como fornecedor de matéria bruta, ou como sócio, com processamento, tecnologia e renda dentro do país? Nossa leitura é que um candidato que oferece a riqueza mineral do país como "solução" para outra potência, sem falar em contrapartidas, trata a nação como fornecedor e não como sócio. Fazemos questão de registrar que o tema atravessa campos: Lula e Caiado trocam acusações sobre o assunto, e o governo anunciou um conselho nacional para a política de terras raras. Nossa régua vale para todos: processamento nacional, transferência de tecnologia e controle público do subsolo.

A história brasileira conhece esse roteiro. Pau-brasil, ouro, açúcar, borracha, café: cada ciclo exportou riqueza e deixou cicatriz. É a velha síndrome colonial de vender o bruto e comprar o beneficiado. Sobre privatizações, Flávio se declarou "muito favorável", disse que cada estatal seria avaliada individualmente e cogita vender participações da União em empresas e imóveis. No governo Jair Bolsonaro foram vendidas a BR Distribuidora e refinarias, como a Landulpho Alves, na Bahia. Privatizar não é, por si só, pecado nem virtude. Vira problema quando infraestrutura estratégica e recursos naturais passam a servir a quem tem mais caixa e mais trânsito em Washington. Subserviência é uma postura, e uma nação sem postura vira cenário.

9. Censura e liberdade religiosa: de quem é a liberdade?

Censura é uma palavra que todos os lados usam. Flávio acusa o governo Lula e o STF de "calar a direita" e se apresenta como defensor da liberdade de expressão. Concordamos com o princípio, porque liberdade de expressão é a respiração da arte, e justamente por isso exigimos coerência. Em setembro, quando circulou nas redes a alegação de que Flávio apoiaria tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, algo que ele nega, a campanha pediu a retirada de uma publicação do humorista Antonio Tabet, e o ministro André Mendonça, no TSE, determinou a remoção. O ministro Flávio Dino derrubou a decisão, afirmando que o texto não citava o candidato e que a medida restringia a liberdade de expressão. Não entramos no mérito da alegação. Observamos o padrão: quem se apresenta como defensor da liberdade recorre à remoção quando o conteúdo é com ele. Liberdade, para valer, protege também o humor que incomoda o poderoso.

Nós sabemos o que a censura faz com a música. Durante a ditadura, o AI-5 calou artistas e levou Gilberto Gil e Caetano Veloso ao exílio. O Brasil já viu esse filme, e o fim dele nunca foi bom para a arte nem para a pista. A liberdade que defendemos inclui o artista que ofende o poderoso, o cartaz que provoca, o som que o vizinho acha estranho.

Liberdade religiosa é outro valor que defendemos, e talvez ninguém defenda mais na prática do que a nossa cena. Na nossa pista tem Shiva e Ganesha, tem Oxalá e Iemanjá, tem ayahuasca e daime, tem xamanismo, tem ateu, tem quem só acredita no grave. A Constituição garante a liberdade de crença e de culto (artigo 5º, VI) e define o Estado como laico (artigo 19, I). Flávio inclui a liberdade religiosa entre as pautas de costumes que não abandonará, e nossa preocupação é com o uso do slogan: quando "liberdade religiosa" vira régua de uma única confissão para as políticas públicas, quem perde é o terreiro, o centro espírita, a comunidade hindu, o círculo de cura e a pessoa sem religião. Ou a liberdade vale para todas as crenças na mesma pista, ou não vale para ninguém.

10. Alemanha, 1933: a lição que não é sobre rótulos

Sempre que se fala em Alemanha dos anos 1930, aparece a acusação de exagero. Então vamos com cuidado: não estamos dizendo que o Brasil de 2026 é a Alemanha de 1933, nem que alguém é Hitler. Estamos dizendo que aquele processo é um manual de como uma sociedade culta, musical e instruída foi convencida, passo a passo, do inaceitável, e que quase todos os passos pareciam administráveis na hora.

O partido nazista nunca teve maioria absoluta numa eleição livre. Chegou ao poder em janeiro de 1933 por um acordo com elites conservadoras que acreditaram que poderiam controlá-lo: Hitler chanceler, um conservador como vice, e a ideia de que a responsabilidade do governo o enquadraria. Semanas depois, após o incêndio do Reichstag, um decreto de emergência suspendeu liberdades civis. Em março, uma lei de plenos poderes tirou do Parlamento sua função. O processo foi em boa parte legal, em parte aplaudido, e quase todo acompanhado de uma narrativa de ordem, segurança e defesa dos valores.

E repare por onde começou: pela cultura e pelos corpos. Em maio de 1933, o Instituto de Ciência Sexual de Berlim, referência mundial em pesquisa e acolhimento de pessoas homossexuais e trans, foi saqueado e, dias depois, sua biblioteca virou fogueira numa praça pública, junto com milhares de livros de autores considerados "degenerados". Em 1937, uma exposição de "Arte Degenerada" enfileirou obras modernistas para zombaria pública. O jazz e o swing foram perseguidos; jovens que dançavam swing em Hamburgo e Berlim, a chamada Swingjugend, foram vigiados, presos, e alguns enviados a campos. Homossexuais foram presos aos milhares depois que o Parágrafo 175 foi endurecido, em 1935. Dança, arte, desejo, diferença. Exatamente o que a gente faz no sábado à noite.

A lição incômoda é sobre quem se calou. Houve muita gente "apolítica", muita gente que "só queria trabalhar", músicos que acharam que o importante era seguir tocando. A história não os julga por maldade: julga pelo tempo que levaram para perceber que a música que tocavam já tinha dono. Daí a pergunta que nos move: quem, na nossa cena, vai levar quinze dias, quinze meses ou quinze anos para decidir que isso também lhe diz respeito?

11. O que cada pessoa da cena pode fazer nos próximos 15 dias

Tudo isso poderia virar desânimo. Mas lembre: você já sabe fazer coisa grande com muita gente junta, sem hierarquia, em uma noite. A cena sabe se organizar, sabe se cuidar, sabe resolver problema na marra com o que tem na mão. Aqui está o que dá para fazer, em ordem crescente de coragem:

  1. Vote contra a ameaça à nossa pista e conte para quem ainda está decidindo. São 9,32 milhões de votos de gente que não passou ao segundo turno. Pergunte ao amigo, ao primo, ao colega: "o que você teme perder?". Você vai se surpreender com quantas respostas se parecem com as nossas.
  2. Converse sem gritar. O objetivo não é ganhar o debate, é abrir a porta. Pergunte antes de afirmar. Quem se sente ouvido costuma ouvir de volta.
  3. Se você é DJ, VJ, artista visual, produtor, selo, coletivo ou festival: diga onde está. Silêncio também é posição, e é a que mais agrada a quem quer asfixiar. Não precisa citar nome nem entrar em briga: basta dizer quais valores você defende e o que não negocia. Seu público está olhando e sabe a diferença entre quem calou por cuidado e quem calou por conveniência.
  4. Cobre coerência, de dentro para fora. De marcas, de casas, de quem lucra com a cena, e de nós mesmos. Coerência é pagar cachê justo, ter protocolo anti-assédio, ter equipe diversa, incluir redução de danos, respeitar o trabalhador. Não existe pista progressista só no palco.
  5. Faça perguntas e exija respostas por escrito. Qual é a política de cultura? Como fica a redução de danos? Haverá compromisso com a criminalização da LGBTfobia? E com a igualdade salarial? Qual é a posição sobre o fim da escala 6x1? Como o Brasil vai processar as próprias terras raras? Quem quer o voto deve responder.
  6. Cuide de quem tem medo. Ofereça carona para quem vai votar, ajude quem está com dúvida sobre o local de votação, esteja ao lado de quem se sente exposto. Cuidado também é política.
  7. Organize-se para depois de 25 de outubro. Qualquer que seja o resultado, o trabalho continua: associações de produtores, coletivos de cuidado, redes de apoio jurídico para festas independentes, pressão por políticas culturais locais. A cena que se organiza não depende de ninguém para existir.

Nota de transparência: o que este texto não afirma

Um manifesto forte se sustenta em fatos, e por isso vale deixar explícito o que não dizemos. Não dizemos que Flávio Bolsonaro prometeu acabar com o Bolsa Família: ele afirma que o programa será mantido. Não dizemos que ele pretende privatizar o SUS, o que é falso e foi desmentido por checagem. Não dizemos que existe plano escrito contra o psytrance ou contra as festas independentes: dizemos que o histórico, a coalizão e a pauta de costumes e segurança aumentam o risco de asfixia. Reconhecemos que ele repudiou falas sexistas de aliados. E registramos que o debate sobre terras raras envolve também o governo Lula e outros candidatos, que a mesma régua deve valer para todos. Quem discordar de qualquer uma dessas leituras, o debate é bem-vindo, desde que tenha fontes.

Epílogo: a segunda metade da frase

Volte para aquela pista das cinco e quarenta e dois. O céu ainda não decidiu a cor. O grave ainda está no seu peito. Lembra da frase que pedimos para guardar? Ninguém desligou o som de uma vez. Foi um papel de cada vez.

Aqui vai a segunda metade, e é a parte que importa: o contrário também é verdade. Ninguém salva uma pista de uma vez só. Salva-se uma pista com um voto de cada vez, uma conversa de cada vez, uma posição pública de cada vez, um cuidado de cada vez. No dia 25 de outubro, quando a noite chegar e você estiver de volta em casa, qualquer que seja o resultado, você vai saber que fez a sua parte. E quando o grave voltar a entrar no próximo amanhecer, você vai sentir no peito o que sentimos agora: pertencimento a algo que valeu a pena defender.

Quem pensa diferente de nós continua sendo bem-vindo na pista, desde que a pista continue sendo de todo mundo. Compartilhe este manifesto com quem dança com você, e com quem ainda não dança.

Fontes

Contexto histórico sobre a Alemanha de 1933 a 1945: consenso historiográfico, com base em acervos como o do Museu do Holocausto dos Estados Unidos. Contexto sobre a ditadura brasileira: AI-5, de 1968, e o exílio de artistas como Gilberto Gil e Caetano Veloso.

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